Sionismo é o movimento nacional judaico surgido na Europa no fim do século XIX. Ele defende a autodeterminação do povo judeu em um lar nacional, e depois um Estado, na Terra de Israel. A região é associada a Sião, nome bíblico de Jerusalém. Theodor Herzl organizou o movimento a partir de 1897. O sionismo contribuiu decisivamente para a criação de Israel em 1948 e teve várias correntes.
O que significa a palavra sionismo e de onde ela vem?
A palavra vem de Sião (Tsiyon), um dos nomes bíblicos de Jerusalém. Com o tempo, Sião virou símbolo de toda a Terra de Israel.
O termo Zionismus foi cunhado pelo intelectual austríaco Nathan Birnbaum. As fontes divergem um pouco sobre a data: algumas indicam 1890, outras situam a criação entre 1890 e 1892, na publicação Selbst-Emanzipation!.
O desejo de retorno a Sião já aparecia na liturgia e na tradição judaica havia séculos. O sionismo moderno transformou essa aspiração em um projeto político e nacional. Ele nasceu em meio ao antissemitismo europeu e aos nacionalismos modernos. Segundo a Britannica, o movimento defendia um lar para o povo judeu na Palestina. Para muitas de suas correntes, esse lar deveria ser um Estado.
O sionismo costuma ser descrito a partir de três ideias:
- Am Yisrael (o povo de Israel): os judeus formam um povo, com identidade histórica e cultural própria, e não apenas uma comunidade religiosa.
- Eretz Yisrael (a Terra de Israel): o povo judeu mantém uma ligação histórica e espiritual contínua com essa terra.
- Medinat Yisrael (o Estado de Israel): o povo judeu tem direito à autodeterminação política em um Estado soberano.
Quem é o pai do sionismo?
O jornalista austro-húngaro Theodor Herzl (1860–1904) é chamado de “pai do sionismo político moderno”. A expressão é correta, com uma ressalva: ele organizou e internacionalizou o movimento, mas não foi o primeiro a defender a vida judaica na Terra de Israel.
Os precursores:
- O rabino Yehuda Alkalai, o rabino Zvi Hirsch Kalischer e o filósofo Moses Hess já defendiam o trabalho agrícola e o assentamento na Palestina. Hess escreveu Roma e Jerusalém (1862).
- Em 1881, uma onda de pogroms atingiu o Império Russo. Em setembro de 1882, o médico Leon Pinsker publicou Autoemancipação. Ele argumentou que os judeus deviam assumir o controle do próprio destino.
- O texto de Pinsker inspirou as sociedades Hovevei Zion (“Amantes de Sião”), formalizadas na Conferência de Kattowice, em 1884. Elas organizaram os primeiros assentamentos agrícolas.
A contribuição de Herzl:
O antissemitismo na Europa Ocidental e o Caso Dreyfus, na França (1894), marcaram Herzl. Em 14 de fevereiro de 1896, ele publicou O Estado Judeu (Der Judenstaat). No livro, defendeu que a “questão judaica” era um problema nacional e político, e não apenas religioso ou social (Britannica).
Entre 29 e 31 de agosto de 1897, Herzl convocou o Primeiro Congresso Sionista, em Basileia, na Suíça, com 208 delegados. O congresso fundou a Organização Sionista e elegeu Herzl seu primeiro presidente (Britannica). Também aprovou o Programa de Basileia, redigido por Max Nordau. Seu objetivo era criar para o povo judeu “um lar na Palestina assegurado pelo direito público”.
Em seu diário, em 3 de setembro de 1897, Herzl escreveu que havia fundado o Estado judeu em Basileia. Previu que, “certamente em cinquenta” anos, todos veriam isso. Israel foi proclamado em 1948.
Qual é a diferença entre judaísmo e sionismo?
Judaísmo é a religião e a tradição do povo judeu. Sionismo é um movimento político e nacional moderno, organizado a partir do fim do século XIX. Os dois se cruzam, mas não são a mesma coisa.
- O judaísmo existe há milênios. A aspiração de retorno a Sião faz parte da sua liturgia, mas como esperança religiosa.
- O sionismo propôs uma resposta política: diplomacia, imigração, assentamento e instituições nacionais.
- Houve judeus sionistas, não sionistas e antissionistas. Dizer que o sionismo representa todos os judeus é uma generalização.
- Entre os sionistas, havia religiosos e seculares. O sionismo religioso é apenas uma das correntes. Outras, como a trabalhista, eram laicas.
Uma pesquisa do JPR, feita em julho de 2024 com mais de 4.500 judeus britânicos, mostra essa relação. Nela, 65% se disseram sionistas. Ou seja, a maioria se identifica com o sionismo, mas não todos.
Qual a diferença entre sionista e semita?
Sionista e semita não são sinônimos. Sionista é quem apoia o sionismo, isto é, a autodeterminação do povo judeu em um Estado. É uma posição política, não uma origem ou etnia.
Por isso:
- Nem todo judeu é sionista, e há sionistas que não são judeus.
- Ser sionista não significa concordar com cada governo de Israel. Criticar o governo de Israel não é antissemitismo.
- Criticar o sionismo como ideologia também é legítimo.
O problema começa quando “sionista” vira xingamento genérico para qualquer judeu. Isso acontece, por exemplo, quando o termo aparece junto com estereótipos como “rato” ou com ameaças. Desde julho de 2024, a Meta remove ataques a “sionistas” quando o termo substitui “judeus” ou “israelenses” nesses contextos.
Um teste simples: troque “sionista” por “judeu” na frase. Se o resultado for um preconceito clássico, a frase já não fala de política.
Quem são os sionistas no Brasil e no mundo?
Sionista é qualquer pessoa que apoia o direito do povo judeu à autodeterminação e a existência de Israel. Isso vale no Brasil e em qualquer país. Não é um grupo fechado, um partido ou uma organização secreta.
Na prática, o termo inclui pessoas com visões muito diferentes:
- judeus religiosos e judeus seculares;
- pessoas de esquerda, ligadas à tradição do sionismo trabalhista, e de direita;
- quem apoia o governo de Israel e quem o critica duramente;
- não judeus que defendem que Israel exista.
No mundo, a principal estrutura do movimento é a Organização Sionista Mundial, fundada em Basileia em 1897. Fora dela, ser sionista é uma convicção pessoal, sem cadastro ou filiação.
Tratar “os sionistas” como um bloco único, que controlaria governos ou a imprensa, repete um padrão de preconceito contra judeus. O próprio movimento sempre teve correntes que discordavam entre si.
Quais são as correntes do sionismo?
O sionismo nunca foi uma doutrina única. Suas correntes divergiam sobre religião, socialismo, fronteiras, ritmo da construção nacional, relação com a população árabe e necessidade de um Estado formal.
| Corrente | Nome associado | Ideia central |
|---|---|---|
| Política | Theodor Herzl, Max Nordau | Diplomacia com as grandes potências e garantias jurídicas internacionais |
| Trabalhista (socialista) | David Ben-Gurion | Ideias socialistas, assentamentos coletivos (*kibutzim*) e construção gradual de instituições |
| Revisionista | Ze'ev (Vladimir) Jabotinsky | Nacionalismo mais firme, autodefesa militar e rápida formação de uma maioria judaica |
| Cultural | Ahad Ha'am (Asher Ginsberg) | Renascimento do hebraico e criação de um centro espiritual e cultural |
| Religiosa | Rabino Abraham Yitzhak Kook | Retorno nacional lido à luz da tradição religiosa e da redenção |
| Da Diáspora | Henrietta Szold | Apoio comunitário, filantrópico e social a partir das democracias ocidentais |
A corrente trabalhista teve grande influência no início do século XX e na liderança que fundou Israel.
Como o sionismo levou à criação de Israel?
O movimento combinou diplomacia, imigração e construção de instituições durante cinco décadas, até a proclamação de Israel em 14 de maio de 1948.
- Declaração Balfour (2/11/1917): carta do chanceler britânico Arthur Balfour a Lord Rothschild. Nela, o governo britânico apoiava um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina. O texto também afirmava que nada deveria prejudicar os direitos civis e religiosos das “comunidades não judaicas existentes”. A carta não era um tratado.
- Mandato Britânico (1922): a Liga das Nações incorporou a declaração ao Mandato para a Palestina, ratificado em 24 de julho de 1922.
- Livro Branco de 1939: a Grã-Bretanha limitou a imigração judaica a 75 mil pessoas em cinco anos (Avalon Project).
- Holocausto: fortaleceu a pressão internacional por um refúgio para os sobreviventes, segundo o Museu do Holocausto dos EUA. O sionismo, porém, existia décadas antes.
- Resolução 181 (29/11/1947): a Assembleia Geral da ONU recomendou dividir a Palestina em um Estado judeu e um Estado árabe, com regime internacional para Jerusalém (Avalon Project). A liderança sionista aceitou a proposta. A liderança árabe palestina e os Estados árabes a rejeitaram.
- 14/5/1948: David Ben-Gurion proclamou o Estado de Israel em Tel Aviv. A guerra de 1948 se ampliou com a entrada de exércitos árabes vizinhos. Israel entrou na ONU em 11 de maio de 1949 (Resolução 273)).
Duas leituras do mesmo processo. No discurso sionista, 1948 representa a autodeterminação judaica e uma resposta ao antissemitismo. No discurso palestino, o mesmo processo é a Nakba (“catástrofe”). O termo se refere à expulsão, à fuga e ao deslocamento de centenas de milhares de palestinos. O deslocamento em larga escala é um fato documentado. Causas, responsabilidades e números exatos ainda são debatidos por historiadores.
Sionismo é racismo ou colonialismo? E criticar o sionismo é antissemitismo?
A ONU não considera o sionismo racismo. Em 10 de novembro de 1975, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 3379), que chamou o sionismo de “forma de racismo”. A votação teve 72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções. Em 16 de dezembro de 1991, a própria Assembleia revogou esse texto com a Resolução 46/86. Citar a de 1975 como se estivesse em vigor é um erro de fato.
A leitura “colonialista” é disputada. Há quem analise o sionismo como colonialismo de povoamento. Há também quem o descreva como um movimento nacional de refugiados. Vários fatos pesam nesse debate:
- Muitos dos primeiros sionistas vieram da Europa, e a Grã-Bretanha apoiou o “lar nacional”.
- O movimento não agia em nome de uma metrópole. A própria Grã-Bretanha restringiu a imigração judaica em 1939.
- Grande parte dos judeus de Israel descende de famílias vindas de países árabes e do Irã (bpb).
Onde fica o limite. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por esse critério, negar ao povo judeu o direito à autodeterminação é antissemitismo. Dizer que Israel não tem direito de existir é um exemplo. Criticar políticas e governos de Israel, ou debater o sionismo como ideologia, não é. A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Linha do tempo
- 1862Moses Hess publica *Roma e Jerusalém*.
- 1881Onda de pogroms no Império Russo.
- 1882Leon Pinsker publica *Autoemancipação*.
- 1884A Conferência de Kattowice formaliza as sociedades Hovevei Zion.
- 1890–1892Nathan Birnbaum cunha o termo “sionismo”.
- 1896Theodor Herzl publica *O Estado Judeu* (14 de fevereiro).
- 1897Primeiro Congresso Sionista em Basileia; criação da Organização Sionista e aprovação do Programa de Basileia.
- 1917Declaração Balfour (2 de novembro).
- 1922A Liga das Nações ratifica o Mandato Britânico para a Palestina.
- 1939O Livro Branco britânico limita a imigração judaica a 75 mil pessoas em cinco anos.
- 1947A Resolução 181 da ONU recomenda a partilha da Palestina (29 de novembro).
- 1948David Ben-Gurion proclama o Estado de Israel (14 de maio).
- 1975A Resolução 3379 da ONU chama o sionismo de forma de racismo.
- 1991A Resolução 46/86 revoga a Resolução 3379.
Perguntas frequentes
Quem é o pai do sionismo?
Qual é a diferença entre judaísmo e sionismo?
Qual a diferença entre sionista e semita?
A ONU disse que sionismo é racismo?
- Zionism – Britannica
- Theodor Herzl – Britannica
- The Jewish State – Britannica
- Zionist Congress – Britannica
- Postwar Refugee Crisis and the Establishment of the State of Israel – Museu do Holocausto dos EUA
- Mandato para a Palestina (1922) – Avalon Project, Yale
- Livro Branco britânico de 1939 – Avalon Project, Yale
- Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU – Avalon Project, Yale
- Resolução 273 (III) – Admissão de Israel na ONU
- Resolução 3379 (XXX) – ONU
- Resolução 46/86 – ONU
- Registro da Resolução 3379 – Biblioteca Digital da ONU
- Fuga e expulsão de judeus dos países árabes – bpb (Alemanha)
- Definição operacional de antissemitismo – IHRA
- A year after October 7 – JPR
- Hate Speech Update, julho de 2024 – Meta
