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Antissemitismo no Brasil: o que dizem os dados

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As denúncias de antissemitismo no Brasil subiram muito depois de 7 de outubro de 2023. Segundo a Conib e a Fisesp, foram 1.684 denúncias em 2023 e 1.788 em 2024, o maior número da série. Em 2025, o relatório validou 989 casos, 80,9% deles on-line. Pesquisas da ADL e do Instituto Brasil-Israel mostram estereótipos persistentes. Uma denúncia, porém, não equivale a crime confirmado.

Quantos casos de antissemitismo o Brasil registra por ano?

A principal série pública vem dos relatórios da Confederação Israelita do Brasil (Conib), feitos com a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) e seu Departamento de Segurança Comunitária (DSC). Eles contam denúncias recebidas por canais comunitários. Depois, a própria entidade analisa e classifica cada uma.

AnoNúmero principalO que significa
2022385 denúncias relevantes (496 registros brutos)283 foram classificadas: 171 on-line e 112 off-line
20231.684 denúnciasAlta de cerca de 323% sobre 2022, segundo a Conib
20241.788 denúnciasAlta de 350% sobre 2022; 104 enviadas ao jurídico
20251.428 ocorrências, 989 validadas800 no ambiente digital e 189 no físico

Os números de 2022 a 2024 estão nos relatórios da Conib: 2022, 2023 e 2024. Os de 2025 estão no relatório Antissemitismo no Brasil 2025.

Em 2025, o total ficou abaixo do pico de 2024. Ainda assim, o relatório descreve uma estabilização em patamar elevado, bem acima do nível de 2022.

Por que os números de 2022 e 2023 variam entre as fontes?

Os números variam porque cada relatório conta coisas diferentes. Registro bruto, denúncia relevante e caso classificado não são a mesma coisa.

  • 2022: o relatório específico do ano traz 496 registros brutos, 385 denúncias relevantes e 283 classificadas. O relatório de 2023 cita 398 denúncias em 2022. Outros documentos falam em 397 denúncias válidas. Relatórios internacionais citam 432 incidentes.
  • 2023: a Conib publica 1.684 denúncias. Outros documentos citam 1.410 registros no ano. Relatórios internacionais chegam a 1.774 incidentes.

Por isso, há estimativas diferentes para o mesmo ano. A regra prática é simples: só compare números do mesmo tipo e da mesma fonte. As altas de 323% e 350% são cálculos da Conib sobre suas próprias bases. Elas mostram a evolução das denúncias recebidas, não necessariamente de todos os crimes ocorridos no país.

O que mudou depois de 7 de outubro de 2023?

Depois do ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, as denúncias no Brasil dispararam.

  • Só em outubro de 2023, a Conib recebeu 403 denúncias.
  • Na comparação com outubro de 2022, as estimativas de alta vão de 600% a 1.000%. Relatórios internacionais citam 961%.
  • No último trimestre de 2023, um relatório soma 1.119 denúncias, com média de 12 por dia. Relatórios internacionais apontam 1.363 incidentes no mesmo período, contra 101 um ano antes.
  • Em 2024, o Brasil chegou a cerca de 5 denúncias por dia, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. O relatório fala em média de 4,9.

Uma ressalva é importante. Não se sabe ao certo quanto dessa alta é aumento real de preconceito e quanto é maior visibilidade e disposição para denunciar. Os dados mostram pressão crescente, mas sozinhos não separam essas duas coisas.

Criticar o governo de Israel não é antissemitismo. O problema começa quando judeus brasileiros passam a ser cobrados ou atacados pelo que faz um Estado estrangeiro.

O antissemitismo aparece mais na internet ou na rua?

A maior parte acontece na internet, segundo a Conib.

  • 2023: 74% das denúncias foram on-line.
  • 2024: 73% (1.310 casos), concentrados no X/Twitter (48%) e no Instagram (37%).
  • 2025: 80,9% das ocorrências validadas, cerca de 800 casos.

Há também ameaças e agressões físicas. Alguns casos documentados:

  • Outubro de 2022: a Polícia Civil prendeu seis integrantes da célula neonazista Nova SS de Santa Catarina na Operação Gun Project.
  • Novembro de 2023: a Polícia Federal fez a Operação Trapiche, em São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. A operação desarticulou uma rede ligada ao Hezbollah e ao regime iraniano. A rede recrutava brasileiros para atacar alvos da comunidade judaica, como sinagogas.
  • 2025: entre as denúncias, constam a tentativa de atropelar um homem de quipá em Joaçaba (SC), em 21 de março, e uma agressão em Porto Velho (RO), em 3 de maio. Houve ainda vandalismo no portão de uma sinagoga no Rio de Janeiro, em 21 de julho, e pichações de suásticas no Cemitério Israelita de Belo Horizonte, em agosto.

O neonazismo também cresceu. Segundo o Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil, houve 240 eventos de antissemitismo e neonazismo entre 2019 e 2022. Os atos neonazistas passaram de 12 em 2019 para 89 em 2022.

O que as pesquisas de opinião dizem sobre os brasileiros?

As pesquisas mostram um quadro ambivalente. A maioria tem opinião favorável aos judeus, mas estereótipos antigos persistem.

Índice ADL Global 100. A ADL mede o endosso a 11 estereótipos negativos sobre judeus.

  • Em material da ADL em português, o Brasil aparece com 16% dos adultos com atitudes antissemitas, cerca de 22 milhões de pessoas.
  • Versões mais recentes citam 26%. Um artigo de opinião no Poder360 traduz esse dado em 41 milhões de adultos.
  • Outros documentos registram 16% em 2014 e 25% em 2019.

As estimativas diferem conforme a onda da pesquisa e o método. Por isso, devem ser lidas com cautela.

Alguns estereótipos medidos:

  • 55% acham que judeus têm muito poder nos negócios.
  • 35% associam judeus ao controle de assuntos globais.
  • A ideia de que judeus são mais leais a Israel teve 70% de concordância em 2019, contra 42% em 2014.
  • Na pesquisa de 2019, 22% disseram nunca ter ouvido falar do Holocausto. Outros 55% disseram nunca ter conhecido uma pessoa judia.

Instituto Brasil-Israel (IBI). Segundo o estudo Percepções e narrativas, 48% desconhecem o significado de antissemitismo. Além disso, 30% já viram piadas que ligam judeus a dinheiro, poder, aparência ou Holocausto. A maioria não vê o antissemitismo como problema grave ou urgente.

IBI/StandWithUs Brasil com AtlasIntel (2026). No relatório de 2025, 51% veem como discurso de ódio a frase de que pessoas pró-Israel são má influência para a democracia. Já 43% consideram preconceituosa a ideia de que Israel usa o Holocausto como desculpa.

Concordar com um estereótipo descreve a opinião de quem responde. Não torna o estereótipo verdadeiro.

Antissemitismo é crime no Brasil?

Sim. O antissemitismo é crime de racismo, inafiançável e imprescritível.

  • A Lei 7.716/1989 pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
  • No caso Ellwanger (HC 82.424), o Supremo Tribunal Federal decidiu em 17 de setembro de 2003, por 8 votos a 3, que antissemitismo é racismo. O STF entendeu que racismo é um conceito social e histórico, não biológico. Também afirmou que a liberdade de expressão não protege o discurso de ódio. O editor Siegfried Ellwanger publicava livros antissemitas e de negação do Holocausto.
  • Em 25 de fevereiro de 2022, o pastor Tupirani da Hora Lores foi condenado a 18 anos de reclusão por racismo e incitação ao ódio contra judeus.
  • Em 2025, o STF decidiu que o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) não se aplica a crimes de racismo contra judeus.
  • Desde outubro de 2023, mais de 60 casos foram levados à polícia e ao Ministério Público. Nos 24 meses seguintes, houve em média uma condenação por antissemitismo a cada três meses.

A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Responsabilizar judeus coletivamente pelas ações do Estado de Israel também é.

Quais são os limites desses dados?

Não existe no Brasil uma estatística oficial única e comparável sobre antissemitismo. Cada fonte mede uma coisa diferente.

  • Disque 100: registra denúncias de racismo e injúria racial em geral, sem separar o antissemitismo. Foram 1,8 mil denúncias em 2022, 3,1 mil em 2023 e mais de 3,4 mil em 2024, até novembro. Veja os dados abertos do Ministério dos Direitos Humanos e o comunicado do governo.
  • SaferNet: recebeu 14.108 denúncias únicas de crimes de ódio na internet em 2024, segundo seu relatório anual. O número inclui todos os tipos de ódio, não só o antissemita.
  • Polícia: não há um painel nacional com boletins, inquéritos ou condenações por antissemitismo. Os casos aparecem espalhados pelos estados e em categorias como racismo, ameaça ou apologia ao nazismo.
  • Denúncia não é prova: um registro na Conib, no Disque 100 ou na SaferNet não comprova, sozinho, que houve crime. A confirmação depende de investigação ou de decisão judicial.

Em resumo, os números da Conib são o melhor termômetro disponível. Eles devem ser lidos como denúncias recebidas e classificadas por uma entidade, não como estatística criminal oficial.

Linha do tempo

  1. 1989A Lei 7.716 passa a punir a discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
  2. 2003Em 17 de setembro, o STF decide no caso Ellwanger, por 8 votos a 3, que antissemitismo é crime de racismo.
  3. 2022A Conib publica seu monitoramento: 385 denúncias relevantes. A célula Nova SS de Santa Catarina é presa em outubro.
  4. 2023Após o 7 de outubro, as denúncias disparam: 403 só em outubro e 1.684 no ano, segundo a Conib. Em novembro, a PF deflagra a Operação Trapiche.
  5. 2024Recorde de 1.788 denúncias, 73% delas on-line.
  6. 2025989 casos validados, 80,9% on-line. O STF veta o ANPP em crimes de racismo contra judeus.

Perguntas frequentes

Quantas denúncias de antissemitismo o Brasil teve em 2024?
Segundo o relatório da Conib e da Fisesp, foram 1.788 denúncias em 2024, o maior número da série. Isso dá cerca de cinco denúncias por dia. A Conib calcula alta de 350% em relação a 2022. Do total, 73% ocorreram na internet e 104 foram enviadas ao departamento jurídico para avaliação, o que não significa condenação.
O antissemitismo diminuiu no Brasil em 2025?
Caiu em relação ao pico de 2024, mas continuou alto. O relatório de 2025 contou 1.428 ocorrências, das quais 989 foram validadas como antissemitas. Foram 800 casos no ambiente digital e 189 no físico. O documento descreve uma estabilização em patamar elevado, bem acima do registrado em 2022, antes do 7 de outubro.
Quantos brasileiros têm atitudes antissemitas?
As estimativas variam. Em material da ADL em português, o Brasil aparece com 16% dos adultos, cerca de 22 milhões de pessoas. Versões mais recentes do índice citam 26%. Os estereótipos mais comuns são os de que judeus têm muito poder nos negócios, citado por 55%, e controlam assuntos globais, citado por 35%.
Criticar Israel é antissemitismo?
Não. Criticar o governo de Israel, como se critica qualquer governo, não é antissemitismo. Pela definição da IHRA, adotada pela JJO, vira antissemitismo negar o direito de Israel existir, usar estereótipos contra judeus ou responsabilizar judeus coletivamente pelo que o Estado de Israel faz. Cobrar um judeu brasileiro por decisões de outro país é preconceito.
Em revisão pela JJO. Toda afirmação tem fonte. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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