A presença judaica no Brasil começa em 1500, com cristãos-novos, judeus convertidos à força em Portugal e seus descendentes. Eles enfrentaram a Inquisição. No Recife holandês surgiu a Kahal Zur Israel, de 1636, tida como a primeira sinagoga das Américas. No século XIX chegaram judeus marroquinos à Amazônia. No século XX vieram asquenazitas e refugiados do nazismo. Hoje a maior comunidade está em São Paulo.
Onde chegaram os primeiros judeus no Brasil?
Os primeiros judeus chegaram ao Brasil como cristãos-novos, já com a esquadra de Pedro Álvares Cabral, em 1500. Depois se fixaram sobretudo na Bahia e em Pernambuco.
Cristãos-novos eram judeus convertidos ao catolicismo, muitas vezes à força, e seus descendentes. A conversão forçada veio depois dos decretos de expulsão da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1497.
- Gaspar da Gama, cristão-novo, participou da esquadra de Cabral em 1500.
- Fernão de Loronha, arrendatário do pau-brasil, também tinha origem cristã-nova.
- Cristãos-novos atuaram no cultivo da cana, no financiamento e na administração dos primeiros engenhos de açúcar.
Autores de origem cristã-nova estão entre os primeiros nomes da literatura colonial. Bento Teixeira publicou o poema Prosopopeia em 1601. Os Diálogos das Grandezas do Brasil, de 1618, são atribuídos a Ambrósio Fernandes Brandão.
O IBGE registra essa presença desde o início da colonização no portal Brasil 500 anos.
Como a Inquisição perseguiu os judeus no Brasil colonial?
A Inquisição portuguesa nunca instalou um tribunal permanente no Brasil. Ela fez visitações, recebeu denúncias, prendeu acusados e os enviou para julgamento em Lisboa.
- A primeira Visitação do Santo Ofício foi à Bahia, entre 1591 e 1593.
- A segunda foi a Pernambuco, entre 1593 e 1595.
- Isaac de Castro Tartas foi preso na Bahia e queimado vivo em Lisboa em dezembro de 1647. As fontes divergem entre os dias 14 e 15.
- O dramaturgo carioca Antônio José da Silva, "o Judeu", foi executado em Lisboa no auto-de-fé de 1739.
- Em 1773, o Marquês de Pombal acabou com a distinção legal entre cristãos-velhos e cristãos-novos.
- O tribunal da Inquisição foi extinto em Portugal em 1821.
Os documentos inquisitoriais registram práticas como a guarda do Shabbat, o jejum do Yom Kippur (o "Dia Grande") e o Pessach em casas da Bahia e do Rio de Janeiro. Esses processos estão no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A historiadora Anita Novinsky estudou esse material em Cristãos-novos na Bahia e em Inquisição: prisioneiros do Brasil.
Cautela: uma denúncia não prova que o acusado praticava judaísmo. Muitas acusações nasciam de rivalidades locais, interesses econômicos ou preconceito. Os historiadores divergem sobre a extensão do judaísmo clandestino.
Qual é a história dos judeus no Recife e da primeira sinagoga das Américas?
No Recife, durante o domínio holandês (1630 a 1654), judeus puderam praticar sua fé em público. Ali surgiu a Kahal Zur Israel, tradicionalmente datada de 1636 e apresentada como a primeira sinagoga das Américas.
A Companhia das Índias Ocidentais adotou uma relativa tolerância religiosa. Isso atraiu judeus sefarditas vindos de Amsterdã. Também permitiu que cristãos-novos locais assumissem o judaísmo abertamente.
- A sinagoga ficava na antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus.
- Em 1637 surgiu uma segunda congregação, a Magen Abraham, em Maurícia (Mauritsstad).
- Em 1642 chegou de Amsterdã o rabino Isaac Aboab da Fonseca, apontado como o primeiro rabino a atuar no Novo Mundo.
- Em 1646 ele escreveu Zekher Asiti le-Nifle'ot El, considerado o primeiro texto em hebraico composto nas Américas.
- Em 1648, o documento de unificação comunitária teve a assinatura de 172 membros.
- Os judeus chegaram a ser cerca de um terço da população livre do Recife.
Estimativas diferentes: algumas fontes datam a fundação entre 1636 e 1640. O título de "primeira sinagoga das Américas" depende da definição usada. Ele vale para a primeira comunidade com organização formal e edifício identificado. Práticas judaicas anteriores em outras áreas são menos documentadas.
A liberdade não era plena. Havia limites legais e tensões com autoridades e grupos cristãos. Hoje o prédio abriga o Centro Cultural Judaico de Pernambuco, com escavações e exposições. Pesquisas sobre o tema saem na revista Clio, da UFPE.
O que aconteceu com os judeus do Recife em 1654?
Em 1654, os portugueses retomaram o Recife e os judeus tiveram de partir. Um grupo de 23 pessoas chegou a Nova Amsterdã, hoje Nova York, em setembro daquele ano.
A capitulação holandesa foi assinada em 26 de janeiro de 1654, sob o comando do general Francisco Barreto de Meneses. A comunidade recebeu um prazo de três meses para vender seus bens e sair.
- Muitos voltaram a Amsterdã.
- Outros foram para o Caribe, como Curaçao e Barbados.
- O grupo de 23 homens, mulheres e crianças ajudou a formar a Congregação Shearith Israel, considerada a primeira congregação judaica organizada da futura Nova York.
Divergência: as fontes dão nomes diferentes ao navio: St. Charles, Sainte Catherine ou Valk.
Simplificação comum: dizer que "os judeus do Recife fundaram Nova York" é incorreto. A cidade já existia como colônia neerlandesa. Eles foram fundamentais para o início da comunidade judaica local, mas talvez não fossem todo o grupo fundador.
Os que ficaram no Brasil sob domínio português voltaram a ser alvo do Santo Ofício.
Como os judeus marroquinos chegaram à Amazônia?
Judeus sefarditas do Marrocos começaram a migrar para o Pará e o Amazonas a partir de 1810. O comércio e, depois, o ciclo da borracha atraíram esse fluxo.
A abertura dos portos, em 1810, e a Constituição de 1824 favoreceram a vinda. A Constituição permitia o culto privado de religiões não católicas. Os imigrantes vinham de cidades como Tânger, Tetuão, Fez, Salé, Rabat, Casablanca e Marrakesh. Falavam árabe, espanhol, português e hakitia, língua judaico-marroquina de base hispânica.
- Belém: a sinagoga Essel Avraham é datada de 1824 por algumas fontes. Outras falam em oratórios domésticos a partir de 1826. O primeiro cemitério judaico da região surgiu em Belém em 1842.
- Década de 1870: com o auge da borracha, centenas de judeus marroquinos se espalharam por Belém, Manaus, Óbidos e Cametá. Muitos haviam estudado nas escolas da Alliance Israélite Universelle.
- Manaus: a sinagoga Beth Yaacov foi organizada na década de 1920.
Esses imigrantes atuaram no comércio e no abastecimento de comunidades ribeirinhas. Também enfrentaram isolamento, doenças e crises econômicas. Pesquisas do Museu Paraense Emílio Goeldi e um dossiê divulgado pelo Jornal da USP reconstroem essa trajetória.
Os números exatos são incertos, porque os registros consulares, religiosos e civis estão incompletos.
Como foi a imigração judaica para o Brasil no século XX?
A maior onda de imigração judaica veio entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Ela trouxe principalmente asquenazitas da Europa Oriental e Central, fugindo de pogroms, da pobreza e do nazismo.
- Colônias agrícolas: a Jewish Colonization Association, criada pelo Barão Maurice de Hirsch em 1891, fundou no Rio Grande do Sul a Colônia Philippson, em 1904, e a Colônia Quatro Irmãos, em 1911. Com o tempo, muitos colonos se mudaram para Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro.
- Cidades: os imigrantes fundaram sinagogas, escolas, clubes, jornais em iídiche e associações de ajuda mútua. A Congregação Israelita Paulista foi criada em 1936 e acolheu refugiados do nazismo.
- Restrições: em 7 de junho de 1937, o Itamaraty emitiu a Circular Secreta nº 1.127, que negava vistos a pessoas de "origem semita". Ao todo, 28 ordens confidenciais restringiram a entrada de refugiados judeus entre 1937 e 1948.
- Quem ajudou: o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, em Paris, reconhecido como Justo entre as Nações, e Aracy de Carvalho, em Berlim, emitiram vistos contra as ordens oficiais.
- Entradas: estima-se que cerca de 14 mil judeus entraram no país no período, com vistos de turista, de capitalista ou atestados de batismo falsos.
- Pós-guerra: em 30 de maio de 1948 foi fundada a Confederação Israelita do Brasil (CONIB). Nas décadas seguintes chegaram sobreviventes do Holocausto e judeus expulsos do Egito após a Crise de Suez, em 1956.
Entre os refugiados que marcaram a cultura brasileira estão Stefan Zweig, Anatol Rosenfeld, Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai, Frans Krajcberg, Claudia Andujar e Fayga Ostrower.
Qual a cidade com mais judeus no Brasil?
São Paulo é a cidade com mais judeus no Brasil. Depois vêm Rio de Janeiro e Porto Alegre.
Um estudo acadêmico baseado no Censo do IBGE traz estes números aproximados:
| Cidade | Judeus (aprox.) |
|---|---|
| São Paulo | 44 mil |
| Rio de Janeiro | 22 mil |
| Porto Alegre | 7 mil |
| Belém | 1,3 mil |
| Recife | 1,3 mil |
| Manaus | 1,2 mil |
O mesmo estudo calcula cerca de 50 mil judeus no estado de São Paulo. Outras estimativas falam em 50 mil a 60 mil no estado e em 22 mil a 25 mil no Rio. Há comunidades também em Curitiba, Belo Horizonte e Brasília.
Quantos judeus vivem no Brasil e quem são os descendentes de judeus?
O Censo 2010 do IBGE contou 107.329 pessoas que declararam o judaísmo como religião. Estimativas comunitárias são maiores. A CONIB fala em cerca de 120 mil, e outras estimativas chegam a 140 mil.
O número muda conforme o critério:
- O IBGE mede religião declarada, não ascendência ou identidade cultural.
- Um judeu secular, sem religião, pode não aparecer na categoria "Judaísmo".
- Para o Censo 2022, há referência a cerca de 92 mil declarantes, ou 0,05% da população. Outra parte do material não encontrou um total oficial comparável. Por isso, o dado de 2010 segue como o mais citado.
Com esses números, o Brasil tem a segunda maior comunidade judaica da América Latina, atrás da Argentina.
Descendentes são um grupo mais amplo. Incluem herdeiros dos cristãos-novos coloniais, muitos sem vínculo religioso com o judaísmo. Incluem também famílias amazônicas de origem marroquina, algumas identificadas como "judeus-caboclos", e netos de imigrantes do século XX que não praticam a religião.
A comunidade atual é plural. Reúne correntes ortodoxas, conservadoras e progressistas, além de judeus seculares. Ela também tem opiniões variadas sobre o governo de Israel. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA, que considera antissemita culpar os judeus coletivamente pelos atos do Estado de Israel.
Linha do tempo
- 1497Conversão forçada dos judeus em Portugal dá origem aos cristãos-novos.
- 1500O cristão-novo Gaspar da Gama participa da esquadra de Cabral.
- 1591–1595Visitações da Inquisição à Bahia e a Pernambuco.
- 1601Bento Teixeira publica a Prosopopeia.
- 1630Início do domínio holandês em Pernambuco.
- 1636Fundação tradicional da Kahal Zur Israel, no Recife.
- 1642Chega ao Recife o rabino Isaac Aboab da Fonseca.
- 1654Reconquista portuguesa do Recife; 23 judeus chegam a Nova Amsterdã.
- 1739Antônio José da Silva, "o Judeu", é executado em Lisboa.
- 1773Pombal extingue a distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos.
- 1810Começa a imigração de judeus marroquinos para a Amazônia.
- 1821Extinção da Inquisição em Portugal.
- 1904Fundação da Colônia Philippson, no Rio Grande do Sul.
- 1937Circular Secreta nº 1.127 restringe vistos a judeus.
- 1948Fundação da Confederação Israelita do Brasil (CONIB).
- 2010O Censo do IBGE registra 107.329 judeus.
Perguntas frequentes
Onde foi a primeira sinagoga do Brasil?
Qual foi a primeira sinagoga das Américas?
Quando foi construída a primeira sinagoga do Brasil?
Os judeus do Recife fundaram Nova York?
- IBGE – Brasil 500 anos: Judeus
- IBGE – Judeus no Brasil: vida social, política e cultural
- IBGE – Classificação de religiões, Censo 2010
- IBGE – SIDRA: população residente por religião
- Anita Novinsky – Cristãos-novos na Bahia (Repositório USP)
- Anita Novinsky – Inquisição: prisioneiros do Brasil (Repositório USP)
- Revista Clio (UFPE) – estudo sobre o Brasil Holandês
- Jornal da USP – Dossiê reconstrói história de comunidades judaicas na Amazônia
- Museu Paraense Emílio Goeldi – estudo sobre judeus na Amazônia
- Revista Caminhos (PUC Goiás) – artigo sobre judaísmo no Brasil
- Revista Arquivo Maaravi (UFMG)
- Hamsa – Journal of Judaic and Islamic Studies
- Dialnet – estudo demográfico sobre judeus no Brasil
- Teses USP – pesquisa sobre judeus no Brasil
- IHRA – Definição operacional de antissemitismo
